O sol já iluminava completamente Willow Creek. Depois de horas de caos, ambulâncias deixavam o bairro, policiais desmontavam o perímetro e as famílias finalmente voltavam para casa com seus filhos. A antiga casa permanecia isolada, mas, pela primeira vez naquela noite, o silêncio havia retornado.
Poucos minutos depois, Emma Brooks estacionou a viatura próximo a Bryan Carter. Assim que desceu, ele caminhou imediatamente em sua direção. Antes mesmo de perguntar qualquer coisa sobre a investigação, observou atentamente a parceira. Queria apenas ter certeza de que ela estava bem.
Emma percebeu o olhar.
— Estou inteira... pelo menos fisicamente.
Bryan soltou um discreto sorriso.
— E o resto?
Ela respirou fundo antes de responder.
— Ainda estou tentando entender tudo o que aconteceu.
— O disparo vai te trazer problemas?
Emma balançou a cabeça.
— Acho que não.
Ela tirou o boné, passou a mão pelos cabelos e voltou a encará-lo.
— As câmeras do estacionamento registraram uma versão completamente diferente da que eu vivi. Nas imagens, Laura avança na minha direção de forma ameaçadora e eu atiro em legítima defesa. Os peritos disseram que alguns segundos da gravação simplesmente desapareceram. Ninguém consegue explicar como aquilo aconteceu.
Ela desviou o olhar para a antiga casa.
— Seja lá o que aconteceu naquela noite... eu nunca mais vou esquecer.
Bryan apenas concordou.
Logo em seguida, Liam Carter aproximou-se dos dois. Bryan apresentou oficialmente o pai à investigadora, e Emma apertou sua mão antes de ouvi-lo dizer que ainda havia muitas respostas para serem dadas, mas que aquele não era o momento. As horas seguintes foram consumidas por depoimentos, perícias e incontáveis procedimentos policiais, enquanto as consequências daquela madrugada começavam a atingir todas as famílias envolvidas.
David Mitchell descobriu, da pior maneira possível, que Emily não era sua filha biológica. Sarah foi obrigada a revelar o relacionamento que mantivera com Michael Foster anos antes, um segredo que carregava desde o nascimento da menina. Ao mesmo tempo, Michael precisava enfrentar a morte de Laura e aceitar que a própria esposa havia iniciado o ritual responsável por desencadear todos aqueles acontecimentos. Nenhuma daquelas famílias sairia ilesa do que vivera naquela madrugada.
Já passava das dez da manhã quando Bryan, Emma e Liam finalmente deixaram o distrito policial. Os três seguiram até uma pequena lanchonete na entrada da cidade e, pela primeira vez desde o início da investigação, sentaram-se em silêncio diante de uma mesa. O café chegou, mas ninguém tocou na comida. Cada um ainda tentava processar tudo o que acontecera nas últimas horas.
Foi Liam quem rompeu o silêncio.
— Existe uma história que vocês precisam conhecer.
Bryan e Emma voltaram a atenção para ele, Liam apoiou lentamente a xícara sobre a mesa.
— A família Carter faz parte de uma antiga organização conhecida como Ordem de São Miguel. Durante séculos, nossos membros dedicaram a própria vida a localizar, enfrentar e aprisionar entidades demoníacas antes que elas colocassem o mundo em risco. Pouquíssimas pessoas sabem que essa ordem existe. Com o passar dos anos, os relatos sobre demônios desapareceram, nossos membros envelheceram, muitos morreram e outros simplesmente acreditaram que a missão havia terminado.
Ele fez uma breve pausa antes de continuar.
— Mas existe uma posição dentro da Ordem chamada Conjurador.
Emma franziu a testa.
— O que é um Conjurador?
Liam olhou diretamente para Bryan.
— Um Conjurador não aprende os antigos rituais. Ele simplesmente... os conhece. É capaz de compreender línguas antigas sem nunca tê-las estudado e consegue pronunciar orações que jamais ouviu antes, como se tivesse nascido para isso.
Bryan permaneceu completamente imóvel. Liam respirou fundo.
— Faz muitas gerações que nenhum Conjurador nasce na nossa família. Ontem à noite, quando você corrigiu minha oração em latim... eu finalmente entendi.
Seus olhos permaneceram fixos no filho.
— Você é um deles.
O silêncio voltou a dominar a mesa. Bryan olhou para Emma, Emma olhou para Liam e, depois de tudo o que haviam vivido naquela noite, nenhuma daquelas palavras parecia impossível. Bryan permaneceu alguns segundos encarando a xícara de café. Então abriu um pequeno sorriso, o primeiro desde o desaparecimento de Nathan, levantou os olhos para o pai e fez apenas uma pergunta.
— Qual é o próximo passo?
Liam sorriu discretamente. Mas não respondeu.
Do lado de fora da lanchonete, a cidade seguia sua rotina. Carros cruzavam as ruas, comerciantes reabriam seus estabelecimentos e crianças voltavam a brincar nas calçadas, como se o terror daquela madrugada jamais tivesse existido. Pela primeira vez em muitas horas, Willow Creek parecia novamente uma cidade comum. Mas, para Bryan Carter, aquela noite não encerrara uma investigação. Ela revelara quem ele realmente era. E aquilo... Era apenas o começo.