Minutos depois de Elizabeth repetir, pela última vez, que havia sido a casa, Bryan Carter permaneceu alguns instantes em silêncio. A sala continuava tomada pelo desespero da família Foster, mas sua atenção estava presa às palavras da menina. Não acreditava que uma construção pudesse ser responsável pelo desaparecimento de quatro crianças, porém também sabia que, até aquele momento, aquela era a única direção concreta que possuíam.
Ele olhou para Emma.
— Vamos até a casa.
A investigadora ergueu os olhos do bloco de anotações.
— Você acha que vale a pena?
— Acho que é o único lugar citado por uma testemunha.
Emma fechou o caderno.
— Então vamos.
Poucos minutos depois, novas viaturas cercavam a antiga casa abandonada no fim da rua. Policiais estendiam um amplo perímetro de segurança enquanto lanternas riscavam a fachada coberta pelo mato alto. Alguns moradores tentavam se aproximar, mas eram imediatamente orientados a permanecer atrás das fitas de isolamento. O burburinho da vizinhança havia desaparecido. Agora, todos observavam em absoluto silêncio, como se a simples presença daquela casa fosse suficiente para provocar um desconforto coletivo.
Bryan caminhou lentamente até a entrada. A velha porta principal já não cumpria sua função havia muitos anos. A madeira apodrecida havia cedido com o tempo, permanecendo apenas encostada no batente, como um convite silencioso para quem ousasse entrar.
O detetive ajustou a lanterna presa ao cinto.
— Fiquem atentos. Não sabemos o que vamos encontrar.
Dois policiais confirmaram com um gesto de cabeça. Bryan entrou primeiro. Emma veio logo atrás.
O interior parecia congelado no tempo. Uma espessa camada de poeira cobria o piso, escondendo a cor original da madeira. Móveis antigos permaneciam espalhados pelos cômodos exatamente onde haviam sido abandonados anos antes. Algumas cadeiras estavam tombadas, um relógio quebrado permanecia pendurado na parede e o papel de parede se desprendia lentamente em longas faixas, revelando a madeira escurecida por trás. O cheiro de mofo impregnava o ambiente, misturado ao odor característico de madeira úmida. Cada passo fazia o assoalho ranger. O som parecia percorrer toda a casa.
Emma iluminava cuidadosamente cada canto com a lanterna.
— Não vejo sinais de ocupação recente.
Bryan abaixou-se perto da janela.
— Nem pegadas.
Ele passou o dedo sobre um móvel antigo. A poeira acumulada era espessa demais para ter sido formada em poucos dias.
— Se alguém esteve aqui recentemente... foi há bastante tempo.
Mesmo assim, nenhum dos dois conseguia afastar uma sensação incômoda. Não havia qualquer ruído além dos passos da equipe, mas o ambiente provocava a estranha impressão de que outros olhos acompanhavam cada movimento.
Bryan caminhou lentamente até o centro da sala principal. Foi então que algo chamou sua atenção. Uma abertura irregular no telhado permitia que a luz da lua atravessasse a escuridão. O feixe prateado descia exatamente sobre o centro do cômodo, iluminando uma pequena área do piso enquanto todo o restante permanecia mergulhado nas sombras.
— Emma...
Ela aproximou-se.
— O que foi?
Bryan levantou lentamente a lanterna.
— Olhe para cima.
Emma acompanhou o movimento. Assim que a luz alcançou o teto, os dois permaneceram imóveis.
Pintada diretamente sobre a madeira havia uma enorme figura humanoide. O corpo era robusto, desproporcional, e a cabeça sustentava dois grandes chifres curvados. Os braços permaneciam abertos enquanto símbolos estranhos formavam um círculo ao redor da criatura. Parte da pintura havia sido desgastada pelo tempo, mas ainda era evidente o cuidado empregado em cada detalhe. Aquilo não parecia um simples desenho improvisado. Alguém havia dedicado muito tempo para criá-lo.
Emma estreitou os olhos.
— Você reconhece esse símbolo?
Bryan balançou a cabeça.
— Nunca vi nada parecido.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse mais nada. Não conseguiam explicar por quê, mas havia algo profundamente perturbador naquela imagem. Não era apenas a aparência da criatura. Era a sensação de estar sendo observado por ela.
Antes que pudessem examiná-la melhor, uma voz ecoou pelo interior da casa.
— Detetive!
Os dois olharam imediatamente para a porta. Um policial fazia sinais na direção de uma estreita escada de madeira.
— Encontramos alguma coisa aqui embaixo!
Bryan e Emma atravessaram rapidamente o corredor e começaram a descer os degraus estreitos que levavam ao porão. A cada passo, o ar tornava-se mais frio. Quando alcançaram o último degrau, ambos pararam. O cenário diante deles parecia impossível.
Espalhados pelo chão havia inúmeros ossos antigos, parcialmente cobertos pela poeira. Encostadas às paredes permaneciam pequenas jaulas de ferro completamente enferrujadas. Algumas ainda conservavam grossas correntes presas às grades, como se um dia tivessem sido usadas para impedir alguém de escapar.
Nenhum policial ousava tocar em qualquer objeto. Todos permaneciam em silêncio. No fundo do porão, parcialmente iluminada pelas lanternas, erguia-se uma enorme estátua de pedra. Bryan sentiu um aperto involuntário no peito. Era a mesma criatura pintada no teto. Os grandes chifres curvados. Os braços estendidos. O rosto esculpido em uma expressão impossível de interpretar. Era impossível acreditar que aquilo fosse coincidência.
Emma aproximou-se lentamente.
— Quem colocaria uma coisa dessas aqui?
Bryan não respondeu. Nem mesmo ele encontrava uma explicação. A investigadora caminhou mais alguns passos até ficar diante da escultura. Por alguns instantes permaneceu apenas observando cada detalhe da pedra desgastada. Então, quase por impulso, estendeu lentamente a mão.
— Emma... — advertiu Bryan.
Ela apenas olhou para ele.
— É só uma estátua.
Seus dedos tocaram a superfície fria da escultura. Naquele exato instante, uma forte corrente de ar atravessou todo o porão. A poeira acumulada durante anos ergueu-se do chão formando redemoinhos. As correntes presas às antigas jaulas começaram a balançar, produzindo um som metálico que ecoava pelas paredes. As lanternas oscilaram por alguns segundos, fazendo sombras dançarem sobre a pedra.
— O que foi isso? — perguntou um dos policiais, segurando a lanterna com mais força.
Ninguém respondeu. Enquanto a poeira girava pelo ambiente, algo começou lentamente a surgir atrás de uma velha estante encostada na parede.
Bryan estreitou os olhos.
— Iluminem ali.
Os feixes de luz convergiram para o mesmo ponto. Pouco a pouco, o contorno de uma antiga porta de madeira tornou-se visível. A poeira escondia completamente sua existência até poucos segundos antes. Parecia que ela permanecera oculta durante décadas.
O silêncio foi quebrado por um som quase imperceptível. Uma voz. Infantil. Muito baixa.
— Vão embora...
Bryan girou imediatamente o corpo.
— Quem falou?
Nenhuma resposta. Então a voz voltou. Dessa vez havia algo diferente. Misturada ao timbre infantil existia outra voz. Muito mais grave. Rouca. Áspera. Antiga. Como se duas pessoas pronunciassem exatamente as mesmas palavras ao mesmo tempo.
— Vão... embora...
Os policiais ergueram as lanternas em todas as direções. Não havia ninguém. Outro vento atravessou violentamente o porão, levantando novamente a poeira e fazendo as correntes baterem umas contra as outras. Bryan permaneceu imóvel por alguns segundos. Ele tentava encontrar uma explicação lógica para tudo aquilo, mas nenhuma fazia sentido.
Um dos policiais respirou fundo.
— Detetive... a porta.
Bryan voltou a olhar para a estante.
— Afastem isso.
Dois agentes seguraram o velho móvel e começaram a empurrá-lo lentamente. A madeira arrastou sobre o chão de pedra produzindo um ruído desagradável, revelando por completo a antiga porta escondida atrás dele. Emma observava a cena sem dizer uma palavra. Bryan percebeu. A investigadora, que até então tratava toda a história da casa como fruto da imaginação de uma criança assustada, já não parecia tão segura de suas próprias convicções.
Ela respirou fundo antes de quebrar o silêncio.
— Bryan...
Ele voltou o rosto para ela.
Emma ainda mantinha os olhos fixos na porta recém-revelada.
— Talvez...
Sua voz saiu mais baixa do que o habitual.
— Talvez Elizabeth estivesse certa.
Bryan não respondeu imediatamente. Pela primeira vez desde o início daquela investigação, ele percebeu que também já não tinha tanta certeza de estar diante apenas de um caso de polícia.