Assim que desligou o telefone com Emma, Bryan Carter correu em direção às duas meninas. Elizabeth e Emily permaneciam de mãos dadas e caminhavam lentamente em direção à antiga casa abandonada, como se estivessem sendo guiadas por uma força invisível. Elas não demonstravam medo, curiosidade ou qualquer reação. Apenas seguiam em frente.
Bryan aumentou a velocidade. Faltavam apenas alguns metros quando algo aconteceu diante de seus olhos. Sem que ninguém a tocasse, a porta principal da casa começou a se abrir sozinha, produzindo um rangido longo e pesado que ecoou por toda a rua. As meninas continuaram caminhando sem hesitar, sem piscar e sem sequer olhar para os lados, como se não percebessem o que acontecia ao redor.
No exato instante em que estavam prestes a cruzar a entrada, Bryan finalmente conseguiu alcançá-las. Segurou uma em cada braço e as puxou com toda a força para longe da porta. Assim que seus pés se afastaram da entrada da casa, as duas estremeceram ao mesmo tempo, como alguém que desperta de um sonho profundo.
Elizabeth olhou assustada para todos os lados.
— O... o que aconteceu?
Emily apertou a mão de Bryan e o encarou com expressão confusa.
— Onde a gente está?
Bryan soltou um longo suspiro de alívio. Ainda ofegante pela corrida, segurou firmemente as mãos das duas meninas. Depois do que acabara de presenciar, não tinha a menor intenção de soltá-las novamente.
Seu telefone voltou a tocar. Era Emma.
Bryan atendeu imediatamente.
— O que diabos está acontecendo, Bryan?! — perguntou Emma, sem sequer cumprimentá-lo. — As garotas estão bem?
— Estão... mas...
Do outro lado da linha, Emma respirou aliviada.
— Mas o quê?
Bryan permaneceu alguns segundos em silêncio, olhando para a antiga casa abandonada. Ainda tentava encontrar uma explicação para o que acabara de presenciar, mas nenhuma fazia sentido.
— Eu... não sei explicar. Depois eu ligo para você.
Sem esperar uma resposta, encerrou a ligação.
Bryan observou novamente a fachada da antiga casa e sentiu um desconforto que jamais havia experimentado durante toda a sua carreira. Pela primeira vez, começava a acreditar nas histórias que ouvira quando era criança, histórias sobre demônios que seu pai insistia em contar e que ele sempre ridicularizou. Durante anos, considerou tudo aquilo superstição, discutiu inúmeras vezes com Liam Carter e acabou se afastando dele por acreditar que vivia preso a crenças sem qualquer fundamento.
Agora, porém, precisava desesperadamente de respostas.
Ainda segurando as mãos de Elizabeth e Emily, Bryan fez uma nova ligação. Assim que o pai atendeu, contou tudo o que havia acontecido desde o início da investigação: os desaparecimentos das crianças, a casa abandonada, os túneis escondidos sob o bairro, a estátua encontrada no porão, o símbolo pintado no teto e, por fim, revelou o nome identificado pelo especialista.
— Moloque.
Do outro lado da linha houve um longo silêncio.
Quando Liam finalmente começou a falar, sua voz soava pesada, como a de alguém que esperava nunca mais ouvir aquele nome.
— Segundo antigos manuscritos preservados pela nossa família, Moloque era uma entidade adorada por um pequeno culto que existiu naquela região muito antes da fundação de Willow Creek. Entre seus seguidores estava a família Blackwood, um casal que sonhava em ter filhos, mas acreditava que jamais conseguiria. Desesperados, aceitaram participar de um ritual proibido e, pouco tempo depois, nasceram duas meninas.
Bryan permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente cada palavra.
— O preço daquele milagre era impensável — continuou Liam. — Todos os anos, uma criança deveria ser sacrificada. Enquanto o pacto fosse cumprido, Moloque protegeria a família e todos os seus descendentes.
Bryan apertou o telefone contra o ouvido.
— Durante algum tempo, o ritual continuou normalmente, até que, em determinado ano, o casal se recusou a entregar a criança escolhida. Foi naquele momento que tudo mudou. Tomado pela fúria, Moloque deixou de exigir apenas uma vítima e passou a perseguir todas as crianças do bairro.
Liam fez uma breve pausa antes de continuar.
— Desesperados, os moradores procuraram ajuda. Foi então que seu tataravô, Elijah Carter, um estudioso de antigas tradições religiosas, realizou um ritual capaz de aprisionar Moloque dentro daquela casa e selar sua influência. Antes de morrer, ele deixou apenas um aviso registrado em seus manuscritos.
Bryan já imaginava qual seria.
— Moloque jamais poderia ser libertado.
As palavras ficaram ecoando em sua mente por alguns segundos. Então ele fez a única pergunta que realmente importava.
— Se ele foi aprisionado... como está livre outra vez?
Liam respondeu sem hesitar.
— Alguém o libertou. O selo jamais poderia ter sido rompido sozinho. Alguém entrou naquela casa, desfez o ritual e agora Moloque está terminando aquilo que começou décadas atrás.
Bryan olhou para Elizabeth e Emily antes de fazer outra pergunta.
— Como nós podemos detê-lo?
— Segundo os escritos de Elijah, Moloque não quer todas as crianças. As outras foram levadas apenas para fortalecer o ritual. O verdadeiro objetivo dele sempre foram as descendentes da família Blackwood. Sem elas, jamais recuperará completamente sua força.
Bryan voltou a observar as duas meninas.
Algo continuava errado.
Elizabeth e Emily pertenciam a famílias diferentes. Nada daquilo fazia sentido
— Devo levá-las até sua casa?
— Não vai adiantar. Enquanto Moloque estiver livre, nenhum lugar será realmente seguro.
Bryan abaixou a cabeça por alguns instantes.
— Então o que fazemos?
— Estou indo para Willow Creek agora mesmo. Vou levar comigo um antigo óleo consagrado mencionado nos manuscritos de Elijah. Segundo os registros, ele é capaz de ocultar temporariamente a presença das meninas e impedir que Moloque as encontre durante algumas horas.
Bryan encerrou a ligação, mas uma única pergunta continuava ocupando seus pensamentos. Se Elizabeth e Emily eram descendentes da família Blackwood, como pertenciam a famílias completamente diferentes?
Sem perder tempo, ligou novamente para Emma.
— Preciso que faça uma pergunta aos pais das meninas.
— Qual?
— Descubra se alguma delas é adotada.
Emma voltou para a sala de interrogatório. Assim que entrou, percebeu que o ambiente já não era o mesmo de alguns minutos antes. Depois de informar que Elizabeth e Emily haviam sido encontradas e estavam em segurança com o detetive Bryan Carter, os quatro pais demonstravam um visível alívio. O medo ainda estampava seus rostos, mas pelo menos já não havia o desespero causado pelo desaparecimento repentino das meninas.
Assim que Emma se aproximou da mesa, Michael Foster levantou-se.
— Detetive... quando vamos poder ver nossas filhas? Ninguém nos disse absolutamente nada desde que...
— Senhor Foster... — interrompeu Emma, mantendo o tom calmo. — Antes, preciso fazer uma pergunta.
Michael assentiu, embora demonstrasse impaciência.
Emma olhou para os dois casais.
— Alguma das meninas é adotada?
Laura e Michael responderam quase ao mesmo tempo.
— Não.
Emma voltou-se para Sarah e David.
— E Emily?
David respondeu imediatamente.
— Também não. Ela é nossa filha biológica.
Enquanto anotava as respostas, Emma percebeu algo que até então havia passado despercebido. Michael Foster evitava olhar para Sarah Mitchell, e Laura demonstrava um claro desconforto sempre que ele dizia alguma coisa. Os dois mantinham distância um do outro, mas seus olhares revelavam um constrangimento difícil de esconder.
Emma observou aquela cena durante alguns segundos. Não precisava de uma confissão. Pela forma como evitavam se encarar, pelo nervosismo evidente e pelo desconforto entre eles, deduziu que Michael e Sarah haviam mantido um relacionamento secreto.
Ela voltou imediatamente ao telefone.
— Bryan... acho que descobri uma coisa.
— O quê?
— Não tenho como provar, mas tenho quase certeza de que Michael Foster e Sarah Mitchell tiveram um caso.
Bryan permaneceu em silêncio. Aquilo explicava por que Elizabeth e Emily eram tão parecidas. As duas poderiam ter o mesmo pai. Mesmo assim, ainda faltava uma peça importante. As palavras de Liam ainda ecoavam em sua mente, mas uma nova possibilidade começava a tomar forma.
— Emma... faz uma pergunta para os pais.
— Que pergunta?
— Descobre se algum deles foi adotado.
Emma franziu a testa. Não fazia ideia de como aquilo poderia ter relação com o caso, mas já aprendera que Bryan dificilmente fazia uma pergunta sem motivo.
Ela segurou o telefone junto ao ouvido e voltou-se para os quatro.
— Preciso confirmar uma informação. Algum de vocês foi adotado?
Os quatro trocaram olhares, claramente surpresos com a pergunta. O silêncio tomou conta da sala. Depois de alguns segundos, Michael respirou fundo.
— Eu... fui.
Laura baixou os olhos. Sarah e David apenas olharam para Michael, sem entender onde aquela conversa iria chegar.
Emma levou novamente o telefone ao ouvido.
— Bryan... Michael foi adotado.
Bryan também permaneceu alguns segundos em silêncio. Então voltou a falar.
— Pergunta se ele sabe o nome da família biológica dele.
Emma respirou fundo e olhou novamente para Michael.
— O senhor chegou a descobrir alguma informação sobre sua família biológica?
Michael fez um gesto afirmativo.
— Sim. Nunca conheci meus pais verdadeiros, mas encontrei algumas informações nos documentos da adoção. Antes de me tornar Michael Foster... meu nome era Michael Blackwood.
Emma anotou a resposta, embora ainda não entendesse por que aquela informação era tão importante.
— Blackwood... — repetiu em voz alta.
Do outro lado da ligação, Bryan permaneceu completamente imóvel. As palavras de Liam voltaram imediatamente à sua mente. A antiga família que havia feito o pacto com Moloque. A linhagem que a entidade procurava havia décadas.
Agora tudo fazia sentido. Elizabeth e Emily compartilhavam o mesmo sangue, e o pai biológico das duas era descendente direto da família que havia firmado o pacto tantos anos antes. Bryan voltou os olhos para as meninas. Naquele instante, compreendeu que Moloque nunca estivera atrás de qualquer criança. Desde o início, ele procurava apenas as verdadeiras herdeiras da família Blackwood.