O fim da tarde envolvia Willow Creek com a mesma tranquilidade de sempre. As ruas arborizadas estavam tomadas pelo som de bicicletas deslizando pelo asfalto, bolas quicando entre as calçadas e gargalhadas que ecoavam de um quintal para outro. Era um daqueles bairros onde todos se conheciam pelo nome e onde as crianças cresciam praticamente juntas, correndo de uma casa para outra sem que os pais precisassem se preocupar. O sol já começava a desaparecer atrás das árvores, espalhando uma luz dourada sobre os telhados enquanto, pouco a pouco, as vozes dos adultos começavam a chamar os filhos para dentro de casa.
— Nathan! Não demora! — gritou uma mulher do outro lado da rua.
— Tommy, hora do banho! Vamos!
Outras vozes surgiram logo em seguida, misturando-se ao canto distante dos pássaros. As crianças respondiam com o mesmo pedido de sempre.
— Só mais cinco minutos!
Laura Foster sorriu discretamente ao ouvir a negociação acontecendo em praticamente todas as casas da vizinhança. Encostada na varanda, ela observava a rua procurando a filha entre o grupo de crianças.
— Elizabeth! — chamou.
Nenhuma resposta.
Ela esperou alguns segundos antes de tentar novamente, dessa vez elevando um pouco a voz.
— Elizabeth!
Pouco depois, uma pequena figura surgiu correndo pela calçada. Era Elizabeth Foster, irmã de Nathan, uma linda garotinha de apenas sete anos que costumava voltar para casa sempre sorrindo depois de brincar com o irmão e os amigos da rua. Naquela tarde, porém, bastou Laura enxergar seu rosto para sentir um frio percorrer o corpo. A menina chorava desesperadamente. Seu peito subia e descia com dificuldade, como se faltasse ar, e suas pernas pareciam vacilar a cada passo.
Laura desceu os dois degraus da varanda quase correndo e ajoelhou diante da filha antes mesmo que ela alcançasse o portão.
— Elizabeth... meu amor... o que aconteceu?
A menina tentou responder, mas os soluços não permitiam. Laura segurou delicadamente seu rosto com as duas mãos.
— Calma... respira... está tudo bem. Onde está o Nathan?
Elizabeth fechou os olhos por um instante, tentando recuperar o fôlego. Quando finalmente conseguiu falar, sua voz saiu baixa, trêmula e carregada de um medo que Laura jamais havia ouvido.
— A... a casa levou o Nathan...
Laura permaneceu imóvel por alguns segundos.
— O quê?
Elizabeth começou a chorar ainda mais.
— A casa... ela levou o Nathan...
Laura olhou rapidamente para a rua, esperando encontrar o filho escondido atrás de alguma árvore ou rindo da brincadeira. Não havia sinal dele.
Seu coração acelerou.
No fim da rua existia uma velha casa abandonada que fazia parte da paisagem de Willow Creek havia muitos anos. Nenhum morador sabia exatamente quem havia sido o último proprietário. A única certeza era que ninguém colocava os pés ali fazia quase uma década. A pintura desbotada se desprendia das paredes a cada inverno, as janelas permaneciam fechadas por tábuas antigas e o jardim havia desaparecido sob um emaranhado de mato alto que escondia parte da fachada. Durante o dia, era apenas uma construção esquecida pelo tempo. À noite, bastava olhar em sua direção para sentir um desconforto difícil de explicar.
As crianças evitavam brincar perto dali porque os próprios adultos sempre recomendavam que mantivessem distância. Não havia histórias oficiais sobre a casa, apenas aquele tipo de receio silencioso que atravessava gerações sem que ninguém soubesse exatamente como havia começado.
Laura voltou a olhar para a filha.
— Elizabeth... onde o Nathan está?
A menina enxugou as lágrimas com o dorso da mão, mas continuava olhando fixamente para o final da rua.
— Eu vi...
— O que você viu?
Elizabeth demorou alguns segundos para responder.
— A casa levou ele...
Laura já não conseguia esconder o nervosismo. Pegou Elizabeth pela mão e entrou rapidamente em casa enquanto procurava o telefone.
Poucos minutos depois, o silêncio de Willow Creek foi rompido pelo som das primeiras sirenes. As viaturas chegaram rapidamente, iluminando a rua com luzes vermelhas e azuis que se refletiam nas fachadas das casas. Policiais começaram a conversar com os moradores enquanto outros estendiam fitas amarelas para isolar parte da rua. Lanternas percorriam jardins, cercas e terrenos vizinhos na tentativa de encontrar qualquer sinal do garoto desaparecido. Em poucos minutos, dezenas de moradores já observavam toda a movimentação das calçadas, conversando em voz baixa e tentando entender como uma criança podia simplesmente desaparecer em um bairro onde todos se conheciam.
Quase uma hora depois, um carro sem identificação estacionou próximo ao perímetro. Dele desceram o detetive Bryan Carter e a investigadora Emma Brooks. Bryan fez uma rápida leitura do cenário antes de fechar a porta do veículo.
— Alguma testemunha?
Um policial aproximou-se imediatamente.
— Muitas. Mas ninguém viu o garoto sair da rua.
Emma abriu seu bloco de anotações.
— Vamos separar as entrevistas. Quanto mais cedo compararmos os relatos, melhor.
Bryan apenas concordou com um movimento de cabeça antes de seguir em direção aos moradores. Durante os minutos seguintes, os dois trabalharam separadamente. Bryan abordava cada vizinho tentando reconstruir os últimos momentos antes do desaparecimento.
— Quando foi a última vez que viu Nathan?
— Uns quinze minutos antes das sirenes.
— Ele estava sozinho?
— Não... estava brincando com outras crianças.
— Percebeu algum carro estranho? Alguém diferente?
O homem balançou a cabeça.
— Nada. Absolutamente nada.
Do outro lado da rua, Emma fazia perguntas semelhantes.
— Você ouviu algum grito?
— Não.
— Alguma discussão?
— Também não.
— Viu alguém sair correndo?
A senhora pensou por alguns instantes.
— Só as crianças brincando... como fazem todos os dias.
Depois de quase quarenta minutos ouvindo moradores diferentes, os dois investigadores voltaram a se encontrar perto da entrada da residência dos Foster.
— Alguma coisa? — perguntou Bryan.
Emma fechou o bloco de notas.
— Nada que faça sentido.
Bryan respirou fundo.
— Então vamos falar com a família.
Dentro da casa, o clima era completamente diferente do movimento do lado de fora. Peritos percorriam cada cômodo registrando fotografias, recolhendo possíveis vestígios e analisando cuidadosamente portas, janelas e pegadas encontradas no quintal. Cada detalhe era tratado como uma possível peça de um quebra-cabeça que ninguém ainda conseguia enxergar.
Na sala, Michael Foster e Laura Foster aguardavam sentados lado a lado. O desespero estampado em seus rostos contrastava com o silêncio que dominava o ambiente. Entre eles permanecia Elizabeth, abraçando um pequeno travesseiro contra o peito enquanto mantinha os olhos baixos.
Bryan sentou-se diante do casal.
— Senhor Foster... preciso que me fale sobre o Nathan.
Michael passou as mãos pelo rosto antes de responder.
— Ele tem sete anos.
Sua voz falhou por um instante.
— É um bom menino. Nunca deu trabalho.
Laura completou:
— Nunca fugiu de casa. Nunca desapareceu... nunca.
Emma anotava cada resposta.
— Ele tinha algum problema com alguém? Algum vizinho? Algum familiar?
Os dois balançaram a cabeça ao mesmo tempo.
— Não.
Bryan continuou.
— A rotina dele era sempre essa?
— Escola... dever de casa... depois brincava aqui na rua com as outras crianças — respondeu Michael.
O detetive fez uma breve anotação antes de voltar o olhar para Elizabeth. Sua voz tornou-se mais suave.
— Elizabeth... você pode conversar um pouquinho comigo?
A menina levantou lentamente a cabeça. Emma aproximou sua cadeira.
— Não precisa ter medo. Só queremos encontrar o Nathan.
Elizabeth permaneceu em silêncio.
— Você viu algum carro diferente hoje? — perguntou Emma.
A menina balançou a cabeça.
— Algum homem estranho?
Novo gesto negativo.
— Alguém falou com vocês enquanto brincavam?
Elizabeth respirou fundo.
— Não.
Bryan cruzou os braços.
— Então... o que aconteceu com o Nathan?
A menina respondeu sem hesitar.
— A casa levou ele.
Bryan olhou rapidamente para Emma. A investigadora tentou outra abordagem.
— Elizabeth... quando você diz "a casa"... está falando daquela casa abandonada no fim da rua?
A menina confirmou com um pequeno movimento de cabeça.
— Foi ela.
Emma manteve a voz calma.
— Você viu alguém saindo de lá?
— Não.
— Então por que acha que foi a casa?
Elizabeth olhou diretamente para a investigadora.
— Porque foi.
Bryan e Emma trocaram um olhar discreto. Ambos já haviam entrevistado muitas crianças traumatizadas e sabiam que medo e imaginação frequentemente se misturavam depois de acontecimentos tão intensos. Ainda assim, nenhuma das respostas da menina parecia inventada. Ela simplesmente acreditava, com absoluta convicção, no que dizia.
Antes que Bryan pudesse fazer outra pergunta, a porta da sala foi aberta bruscamente. Um policial entrou apressado, respirando com dificuldade. Seu rosto estava completamente pálido
— Detetive...
Bryan levantou-se imediatamente.
— O que aconteceu
O policial engoliu em seco.
— Acabamos de receber novas ligações.
— O que aconteceu?
— Mais três crianças desapareceram.
A sala inteira ficou em silêncio.
Bryan franziu a testa.
— Onde?
— Aqui mesmo... em Willow Creek.
Por um instante, ninguém conseguiu dizer uma única palavra. Até aquele momento, todos acreditavam estar diante de um único desaparecimento. Agora, já eram quatro.
Enquanto Bryan e Emma tentavam compreender como aquilo era possível, Elizabeth permaneceu sentada no sofá. Seu olhar voltou lentamente para a janela, na direção da velha casa abandonada que permanecia invisível dali.
Então, quase como se estivesse repetindo uma verdade que ninguém mais queria aceitar, ela falou baixinho:
— Eu disse...
A menina fez uma pequena pausa.
— Foi a casa.