Dois adolescentes aparecem pedindo ajuda
Na noite de 30 de janeiro de 2020, Vladimir Sankin, então com 33 anos, estava em Ufa, capital da República da Bashkortostânia, na Rússia, quando encontrou dois adolescentes que conhecia. Segundo os autos e reportagens baseadas na investigação, os garotos haviam estado pouco antes no apartamento de Vladimir Zaitsev, um homem de 54 anos. O relato dos adolescentes era perturbador. Eles disseram que Zaitsev os havia convidado para entrar no apartamento, começou a se despir e tentou convencê-los a fazer o mesmo. Um deles conseguiu deixar o local e procurou Sankin. A partir daquele momento, o que deveria ser uma denúncia de possível abuso se transformaria em um caso criminal que dividiria a opinião pública russa.
Vladimir foi até o apartamento
Sankin decidiu intervir. Segundo sua defesa, um dos adolescentes disse que o amigo ainda estava dentro do apartamento de Zaitsev, e Sankin foi até lá para retirá-lo. O advogado de Sankin sustentou posteriormente que Zaitsev teria desferido o primeiro golpe durante o confronto. A versão apresentada pelos investigadores foi diferente. O Comitê de Investigação da Bashkortostânia afirmou que, quando Sankin interveio, Zaitsev não estava mantendo os adolescentes presos, não utilizava força física contra eles e não os ameaçava. Os investigadores também afirmaram que ele estava desarmado e não representava naquele momento uma ameaça real para Sankin ou para os adolescentes. Essa diferença entre as duas versões seria fundamental no processo: para Sankin e sua defesa, ele havia entrado naquela situação para proteger dois menores; para a acusação, a ameaça imediata já havia terminado quando a violência mais grave começou.
A briga saiu do controle
O confronto continuou fora do apartamento. Segundo o que foi estabelecido no processo, Sankin atingiu Zaitsev repetidamente com as mãos, os pés e também com uma peça de madeira de uma cerca. Em determinado momento, Zaitsev permaneceu caído do lado de fora, durante uma noite de frio e neve, sem parte das roupas e sem os sapatos. O processo também envolveu dinheiro retirado de Zaitsev, elemento que levou inicialmente a uma acusação de roubo. A polícia acabou chegando ao local e interrompeu a situação. Zaitsev ainda estava vivo. Uma ambulância foi chamada, mas ele morreu enquanto era transportado para receber atendimento médico. O homem que Sankin dizia ter confrontado para proteger dois adolescentes agora estava morto, e Sankin passaria de interveniente a investigado.
Quem era Vladimir Zaitsev?
A descoberta do histórico de Zaitsev transformou completamente a repercussão pública do caso. Ele não era simplesmente um homem que havia sido acusado por dois adolescentes naquela noite. Segundo as autoridades e informações apresentadas durante o processo, Zaitsev possuía condenações anteriores relacionadas a crimes sexuais contra menores. A imprensa russa informou que ele havia sido condenado repetidamente por crimes dessa natureza. Depois do episódio envolvendo os dois adolescentes, investigadores também abriram um processo contra Zaitsev por atos indecentes contra menores, mas o caso acabou encerrado judicialmente devido à sua morte. Portanto, existe uma distinção importante: Zaitsev tinha histórico criminal confirmado por crimes sexuais contra menores, enquanto as acusações específicas relacionadas aos dois adolescentes naquela noite não chegaram a ser julgadas porque ele morreu antes que o processo pudesse avançar.
Herói ou criminoso?
Quando a história se tornou pública, Sankin recebeu enorme apoio na Rússia. Para parte da população, a situação parecia simples: dois adolescentes haviam procurado um adulto depois de um encontro com um homem que posteriormente se descobriu ser um criminoso sexual reincidente, e esse adulto decidiu ajudá-los. A morte de Zaitsev passou a ser interpretada por apoiadores de Sankin como consequência de uma intervenção para proteger crianças. Mas o sistema judicial precisava responder a outra pergunta. Mesmo que Sankin tivesse inicialmente intervindo para ajudar os adolescentes, até onde poderia utilizar violência depois que a ameaça imediata havia terminado? Foi justamente nesse ponto que a narrativa popular sobre o caso e a análise jurídica começaram a se separar.
A acusação era ainda mais grave
Sankin chegou a enfrentar acusações de homicídio e roubo. Se condenado nos termos mais graves inicialmente apresentados, sua situação poderia ter sido ainda pior. O caso foi analisado por um júri em Ufa. Em dezembro de 2020, os jurados consideraram Sankin culpado. Entretanto, quando o tribunal analisou juridicamente os fatos, sua conduta acabou enquadrada como lesão corporal grave intencional que resultou na morte da vítima, e não como homicídio intencional. Essa diferença era fundamental. O tribunal não estabeleceu que Sankin tivesse saído naquela noite com a intenção prévia de matar Zaitsev. Estabeleceu, porém, que ele havia provocado deliberadamente ferimentos graves que terminaram causando sua morte.
Oito anos
Em 14 de janeiro de 2021, o Tribunal Distrital de Kalininsky, em Ufa, anunciou a sentença: oito anos em uma colônia penal de regime rigoroso. Sankin não esperava uma punição tão elevada. Em entrevistas concedidas depois da condenação, insistiu que havia tentado salvar os adolescentes e afirmou que não pretendia matar Zaitsev. Para ele, o fato de ter recebido oito anos fazia parecer que o tribunal ignorava completamente a razão pela qual havia entrado naquela situação. Os investigadores responderam publicamente às críticas. Segundo o Comitê de Investigação, a condenação não significava que o histórico de Zaitsev estivesse sendo defendido ou ignorado. A questão era que, de acordo com a investigação, Sankin continuou empregando violência quando já não existia uma ameaça imediata que justificasse aquelas agressões.
O caso provoca revolta
A sentença provocou enorme repercussão na Rússia. Programas de televisão discutiram o processo, advogados passaram a questionar a proporcionalidade da pena e milhares de pessoas manifestaram apoio a Sankin. O caso chegou até Alexander Bastrykin, chefe do Comitê de Investigação da Rússia, que em abril de 2021 determinou que os materiais relacionados à investigação fossem novamente analisados. A discussão já não envolvia apenas Sankin. O processo passou a representar uma questão muito mais ampla: qual é o limite entre proteger alguém de um agressor e realizar justiça com as próprias mãos? Para seus defensores, Sankin havia reagido diante de uma situação que poderia terminar em abuso sexual. Para a acusação, esse contexto não autorizava uma agressão que terminou em morte.
A pena não ficou em oito anos
Esse é um detalhe frequentemente omitido quando o caso é contado nas redes sociais. Sankin realmente foi condenado inicialmente a oito anos de prisão em regime rigoroso, mas essa não foi a sentença definitiva. Sua defesa recorreu. Em 26 de abril de 2021, o Supremo Tribunal da Bashkortostânia analisou o recurso e decidiu reduzir a pena. Os oito anos se transformaram em seis. A defesa considerou a redução insuficiente e afirmou que continuaria tentando modificar a decisão. Ainda assim, judicialmente, a pena de seis anos passou a substituir a condenação original que havia provocado tanta repercussão.
O detalhe que muda a história
O caso de Vladimir Sankin costuma ser resumido em uma frase extremamente poderosa: um homem viu dois adolescentes sendo ameaçados por um pedófilo, tentou salvá-los, matou o agressor e recebeu oito anos de prisão. A realidade é mais complexa. Os adolescentes realmente fizeram acusações contra Zaitsev. Zaitsev realmente possuía histórico de crimes sexuais contra menores. Sankin realmente entrou na situação depois de ouvir os adolescentes. Mas os investigadores sustentaram que, quando ocorreu a parte mais grave da agressão, os menores já não estavam sendo mantidos à força e Zaitsev não representava uma ameaça imediata. Sankin, por sua vez, sempre defendeu que sua intervenção começou para proteger os garotos e que não pretendia matar ninguém. O tribunal não aceitou que todo o episódio pudesse ser justificado como defesa dos adolescentes, mas também não manteve o enquadramento mais grave de homicídio intencional.
O preço de uma intervenção
Vladimir Sankin não foi condenado simplesmente por impedir um abuso sexual. Foi condenado porque a Justiça concluiu que a violência empregada contra Zaitsev ultrapassou aquilo que poderia ser juridicamente justificado e provocou sua morte. Ao mesmo tempo, o homem morto possuía um histórico real de crimes sexuais contra menores e havia acabado de ser acusado por dois adolescentes de comportamento sexual impróprio. São justamente esses dois fatos coexistindo que tornaram o processo tão controverso. Sankin entrou naquela situação depois de ouvir um pedido de ajuda. Minutos depois, tomou decisões que mudariam também a própria vida. A sentença inicial foi de oito anos. O recurso reduziu a pena para seis. E, anos depois, o caso continua sendo lembrado não apenas pelo homem que morreu naquela noite, mas por uma pergunta muito mais difícil: em que momento proteger alguém deixa de ser defesa e passa a ser justiça feita pelas próprias mãos?
Fontes: Comitê de Investigação da Federação Russa na Bashkortostânia, Ministério Público da Bashkortostânia, Supremo Tribunal da Bashkortostânia, Interfax e Kommersant.