A imagem que apareceu na televisão
Em maio de 2007, um morador de Kuřim, cidade próxima a Brno, instalava um sistema de monitoramento para acompanhar seu próprio bebê quando recebeu acidentalmente o sinal de uma câmera de outra residência. Na tela apareceu algo que não deveria estar ali: um menino nu e imobilizado. O vizinho alertou as autoridades, e a polícia chegou até a casa de Klára Mauerová. Dentro daquela história estavam os dois filhos de Klára, Ondřej e Jakub. A investigação revelou que os meninos haviam sofrido abusos prolongados em diferentes locais, incluindo Brno, Kuřim e uma propriedade em Veverská Bítýška.
O processo posteriormente responsabilizaria várias pessoas próximas às crianças. Mas havia outra pessoa na casa. Uma garota conhecida como Anička. Ela parecia ter cerca de 13 anos e era tratada como criança. Depois da intervenção das autoridades, foi encaminhada junto com os menores para o sistema de proteção infantil. Pouco tempo depois, Anička desapareceu.
A imagem que apareceu na televisão
Em maio de 2007, um morador de Kuřim, cidade próxima a Brno, instalava um sistema de monitoramento para acompanhar seu próprio bebê quando recebeu acidentalmente o sinal de uma câmera de outra residência. Na tela apareceu algo que não deveria estar ali: um menino nu e imobilizado. O vizinho alertou as autoridades, e a polícia chegou até a casa de Klára Mauerová. Dentro daquela história estavam os dois filhos de Klára, Ondřej e Jakub. A investigação revelou que os meninos haviam sofrido abusos prolongados em diferentes locais, incluindo Brno, Kuřim e uma propriedade em Veverská Bítýška.
O processo posteriormente responsabilizaria várias pessoas próximas às crianças. Mas havia outra pessoa na casa. Uma garota conhecida como Anička. Ela parecia ter cerca de 13 anos e era tratada como criança. Depois da intervenção das autoridades, foi encaminhada junto com os menores para o sistema de proteção infantil. Pouco tempo depois, Anička desapareceu.
Anička nunca existiu
A investigação começou a desmontar a identidade da menina. Anička era, na realidade, Barbora Škrlová, uma mulher adulta com formação em composição musical. Anos depois, documentos e anotações atribuídos a ela mostrariam que sua transformação em criança não havia sido improvisada. Segundo reportagem do MF DNES baseada nesses registros, Barbora começou a se preparar em 2005 para assumir a identidade de uma menina chamada Anna Jervinen. Ela perdeu peso deliberadamente, trabalhou sua aparência e construiu uma história segundo a qual seria uma órfã norueguesa que havia sofrido abusos. Klára Mauerová recebeu a suposta menina em seu círculo familiar e chegou a buscar meios para regularizar sua situação.
Para quem estava de fora, Anička era uma adolescente vulnerável. Dentro da casa, porém, havia uma mulher adulta vivendo entre duas crianças que estavam sendo violentadas. Esse detalhe transformou um caso já grave de abuso infantil em um dos episódios criminais mais difíceis de explicar da história recente da República Tcheca.
O que aconteceu com Ondřej e Jakub
O julgamento estabeleceu que os irmãos sofreram maus-tratos severos e prolongados. Eles foram mantidos em condições degradantes, privados de liberdade e submetidos a agressões físicas. Reportagens contemporâneas sobre a sentença registraram queimaduras, ferimentos provocados com objetos e períodos em que os meninos foram mantidos presos. Algumas das descrições mais extremas do caso acabaram sendo reproduzidas internacionalmente como se todas tivessem sido estabelecidas da mesma maneira pelo tribunal. É aqui que o caso exige cautela. Afirmações sobre uma suposta organização canibal, por exemplo, tornaram-se parte inseparável da narrativa popular de Kuřim.
Durante o processo foram apresentadas acusações envolvendo ferimentos extremamente graves e até episódios relacionados ao consumo de tecido retirado de uma das vítimas. Mas transformar isso simplesmente em uma história sobre uma “seita canibal” reduz um processo muito mais confuso e cheio de versões conflitantes. O que não está em discussão é que Ondřej e Jakub foram vítimas de abuso sistemático e que várias pessoas foram posteriormente condenadas por sua participação.
Barbora era vítima, manipuladora ou as duas coisas?
Essa se tornou uma das perguntas centrais do caso. Nos primeiros meses da investigação, nem mesmo as autoridades pareciam compreender completamente a posição de Barbora. Quando ela foi localizada na Noruega, a polícia tcheca ainda discutia publicamente se ela deveria ser tratada como cúmplice, testemunha ou possível vítima do grupo. Posteriormente, ela foi acusada e condenada por sua participação nos abusos. Ainda assim, chamar Barbora de responsável absoluta por tudo o que aconteceu não corresponde perfeitamente ao que o processo conseguiu demonstrar. Reportagens posteriores chegaram a descrevê-la como o “cérebro” do grupo, enquanto outras análises contestaram essa interpretação. Também surgiram informações de que Barbora poderia ter sido submetida anteriormente a violência ou manipulação. O caso nunca produziu uma explicação simples sobre quem controlava quem.
A sombra de uma seita
Outro elemento que ajudou a transformar Kuřim em um fenômeno internacional foi a possibilidade de que os envolvidos fizessem parte de um grupo religioso extremista. Durante a investigação surgiram referências a crenças religiosas, ao chamado Movimento do Graal e a pessoas próximas da família Škrlová. Documentos apresentados durante o julgamento também revelaram materiais religiosos encontrados durante as buscas. A promotoria chegou a sustentar que os abusos tinham o objetivo de quebrar psicologicamente os meninos e submetê-los. Mas a existência de uma estrutura organizada responsável por todos os acontecimentos permaneceu controversa.
Mesmo anos depois, veículos tchecos continuavam descrevendo aspectos fundamentais do caso como inexplicados. O tribunal conseguiu estabelecer crimes e responsabilidades individuais, mas não esclareceu completamente a estrutura do grupo nem uma motivação única capaz de explicar toda a violência. Portanto, afirmar simplesmente que “uma seita ordenou as torturas” vai além do que pode ser tratado como fato definitivamente comprovado.
A menina desaparece
Depois que o caso foi descoberto, Barbora foi levada para uma instituição de proteção infantil porque as autoridades ainda acreditavam estar diante de uma menor. Então ela fugiu. Durante algum tempo, seu paradeiro se tornou um dos grandes mistérios da investigação. Barbora apareceu posteriormente na Dinamarca e voltou a desaparecer. Quando finalmente foi encontrada novamente, estava centenas de quilômetros distante da República Tcheca. E Anička já não existia. Barbora havia se transformado em Adam.
O garoto de 13 anos
No segundo semestre de 2007, um garoto chamado Adam começou a frequentar uma escola em Oslo, na Noruega. Ele tinha supostamente 13 anos. Durante aproximadamente quatro meses, professores, colegas, funcionários ligados à proteção infantil e autoridades acreditaram na identidade apresentada. A própria diretora da escola admitiria posteriormente que alguns comportamentos de Adam haviam causado estranheza, mas não havia nada que permitisse concluir que aquele estudante não fosse realmente um adolescente. Adam era Barbora Škrlová. Naquele momento, ela tinha 33 anos. Depois de deixar Oslo, Barbora seguiu para Tromsø, no norte da Noruega. Foi localizada pela polícia e posteriormente entregue às autoridades tchecas em janeiro de 2008. A mulher que havia enganado pessoas na República Tcheca vivendo como uma menina havia conseguido repetir a transformação em outro país, desta vez assumindo uma identidade masculina.
Seis pessoas diante da Justiça
O processo criminal de Kuřim colocou seis pessoas no banco dos réus. Em outubro de 2008, o Tribunal Regional de Brno condenou Klára Mauerová a nove anos de prisão. Sua irmã, Kateřina Mauerová, recebeu dez anos. Barbora Škrlová foi condenada a cinco anos. Jan Škrla, irmão de Barbora, recebeu sete anos. Hana Bašová foi condenada a seis anos, e Jan Turek, a cinco. Os recursos levaram o processo ao Tribunal Superior de Olomouc. Em relação a Barbora, houve uma nova análise por questões processuais envolvendo sua representação jurídica, mas sua pena final permaneceu em cinco anos. As demais condenações principais também foram mantidas. A Justiça conseguiu determinar quem deveria responder pelos maus-tratos. Explicar por que aquele grupo chegou àquele ponto foi muito mais difícil.
A motivação que nunca ficou completamente clara
Existiram diferentes interpretações. A promotoria relacionou os abusos a ideias religiosas e a uma tentativa de subjugar psicologicamente as crianças. Alguns envolvidos alegaram terem sido manipulados por outras pessoas. Também foram investigadas possíveis conexões com pornografia infantil e grupos de caráter religioso. Nenhuma dessas explicações, isoladamente, resolveu todas as contradições. A motivação completa por trás do caso de Kuřim nunca foi oficialmente esclarecida de maneira única e definitiva. O que ficou comprovado foi a violência contra Ondřej e Jakub e a participação criminal dos condenados. As teorias sobre uma estrutura maior precisam ser apresentadas como teorias ou interpretações surgidas durante a investigação, não como uma explicação definitiva.
Barbora voltou às ruas
Barbora começou a cumprir sua pena e posteriormente pediu liberdade condicional. Em fevereiro de 2012, depois de cumprir aproximadamente dois terços da condenação, deixou a prisão de Světlá nad Sázavou. O tribunal considerou sua evolução durante o período de encarceramento e estabeleceu um período de cinco anos sob supervisão. Desde então, ela permaneceu longe da exposição pública. Não há informações recentes confiáveis que permitam afirmar onde Barbora vive atualmente ou quais atividades exerce. Por isso, qualquer versão da internet alegando conhecer sua identidade atual ou sua localização deve ser tratada com cautela. Klára Mauerová também acabou deixando a prisão. Ela recebeu liberdade condicional em 2013, depois de mais de seis anos encarcerada.
E a história de “A Órfã”?
Com o passar dos anos, o nome de Barbora passou a ser frequentemente ligado ao filme A Órfã, lançado em 2009, cuja personagem Esther aparenta ser uma criança, mas na realidade é uma mulher adulta.A associação é compreensível, e inúmeras publicações apresentam Barbora como inspiração para o filme. Porém, essa afirmação deve ser tratada com cautela. Fontes sobre a produção atribuem a história original do longa a Alex Mace, e a ligação direta com Barbora é repetida principalmente em textos posteriores e materiais secundários. Não encontrei uma declaração primária suficientemente sólida do criador ou do estúdio que permita afirmar sem ressalvas que o filme foi oficialmente baseado no caso de Kuřim. Existe uma coincidência perturbadora entre ficção e realidade.
Mas o verdadeiro caso de Barbora Škrlová não precisa dessa conexão para parecer um roteiro de cinema. Uma mulher adulta passou anos construindo identidades infantis. Viveu como uma menina dentro de uma família onde duas crianças eram brutalmente maltratadas. Fugiu quando o segredo começou a ser descoberto. Cruzou fronteiras. Reapareceu como um garoto de 13 anos e frequentou uma escola sem que professores, colegas ou autoridades percebessem quem ela realmente era. A Justiça conseguiu condenar Barbora e outras cinco pessoas. O que nunca conseguiu fazer completamente foi explicar o universo de manipulação, crenças e identidades falsas que existia por trás daquela casa em Kuřim.
Fontes: Radio Prague International, Reuters, MF DNES/iDNES, Aktuálně.cz e registros e reportagens do processo no Tribunal Regional de Brno e Tribunal Superior de Olomouc.