Uma confissão quase duas décadas depois
Quando Hayden Panettiere publicou This Is Me: A Reckoning, em maio de 2026, sua imagem já estava ligada a algumas das produções mais conhecidas de sua geração. Ela havia sido Claire Bennet em Heroes, Juliette Barnes em Nashville, Kirby Reed na franquia Pânico e uma das estrelas infantis que conseguiram permanecer em Hollywood depois de crescer diante das câmeras. O livro, porém, mostrava uma história muito diferente daquela vista na televisão. Hayden escreveu sobre dependência química, depressão pós-parto, maternidade, conflitos familiares, relacionamentos violentos e situações envolvendo homens poderosos da indústria do entretenimento. Ela começou a trabalhar ainda bebê. Quando chegou à adolescência, já havia passado praticamente toda a vida em sets, audições e eventos. Poucos meses depois de finalmente contar publicamente algumas das experiências que havia mantido em segredo, Hayden morreu. Em 16 de agosto de 2026, ela foi encontrada inconsciente em um apartamento em Greenville, na Carolina do Sul. Tinha 36 anos.
Um vencedor do Oscar
Uma das histórias mais perturbadoras reveladas por Hayden aconteceu quando ela tinha 19 anos. Segundo seu relato, ela estava em uma pequena festa em um apartamento em Los Feliz, na Califórnia. O ambiente começou a deixá-la desconfortável. Havia vários homens mais velhos conversando, bebendo e fumando maconha, e Hayden decidiu ir embora. Enquanto pegava seu casaco, um homem se aproximou. Ela o descreveu como um respeitado ator e diretor vencedor do Oscar. Hayden não revelou seu nome. Segundo a atriz, o homem chamou sua atenção para algo que supostamente estaria grudado em sua calça. Quando ela olhou para baixo, percebeu que os genitais dele estavam expostos através do zíper aberto. Hayden escreveu que ficou chocada. Naquele momento, entretanto, tentou interpretar o episódio como uma brincadeira de alguém embriagado. Ela não contou aos amigos que estavam na festa. Décadas depois, decidiu registrar a experiência em suas memórias. Mesmo assim, escolheu preservar a identidade do homem. Em entrevistas posteriores ao lançamento do livro, explicou que não pretendia transformar a obra em uma lista pública de acusações e também considerava as possíveis consequências jurídicas de identificar pessoas extremamente poderosas da indústria. O homem nunca foi identificado publicamente por Hayden. Qualquer tentativa de atribuir a acusação a um ator ou diretor específico é, portanto, especulação.
Aos 18 anos, outra situação
O episódio não foi o único. Um ano antes, quando Hayden tinha 18 anos, uma pessoa em quem confiava a levou para uma festa em um barco no sul da França. Hayden acreditava que passaria uma noite se divertindo. Segundo seu relato, essa pessoa a conduziu até uma pequena cabine. Dentro havia um homem mais velho, muito famoso, parcialmente despido em uma cama. Hayden contou posteriormente que percebeu que esperavam que ela tivesse algum tipo de interação sexual com aquele homem. Ela não havia sido avisada previamente. A atriz entrou na cama, mas rapidamente deixou claro ao homem que aquilo não aconteceria e conseguiu sair da situação. No livro, Hayden forneceu outro detalhe: descreveu o homem como um famoso cantor e compositor britânico que estava na casa dos 30 anos naquele período. Ela novamente não revelou sua identidade. Anos depois, ao conversar com Jay Shetty, Hayden explicou como sua percepção daquela noite havia mudado. Aos 18 anos, acreditava ser extremamente madura porque já havia vivido experiências profissionais que poucas pessoas daquela idade tinham enfrentado. Olhando para trás, percebeu que experiência profissional não significava necessariamente possuir maturidade suficiente para reconhecer todos os riscos existentes ao seu redor. Para Hayden, a parte particularmente dolorosa era ter sido colocada naquela situação por alguém em quem confiava.
Uma criança trabalhando em Hollywood
Para compreender por que Hayden falava tanto sobre maturidade precoce, é preciso voltar ao começo. Ela começou a aparecer em comerciais quando ainda era bebê. Antes de completar dez anos, já trabalhava regularmente como atriz. Vieram novelas como One Life to Live e Guiding Light, a dublagem de Dot em Vida de Inseto, Duelo de Titãs e dezenas de outras produções. Aos 17 anos, Heroes transformou Hayden em uma estrela internacional. Mas suas memórias descrevem também o preço de crescer profissionalmente em um ambiente dominado por adultos. Hayden relatou situações envolvendo sexualização, pressão sobre sua aparência e comportamentos inadequados de pessoas mais velhas. Em outro episódio descrito posteriormente pela imprensa, ela afirmou ter recebido um beijo indesejado de um executivo da televisão quando tinha 16 anos. A imagem da adolescente extremamente independente escondia uma contradição: Hayden tinha experiência suficiente para trabalhar como adulta, mas ainda estava aprendendo a reconhecer limites que muitos dos adultos ao seu redor deveriam ter respeitado.
O início da dependência
Outro aspecto central de suas memórias foi a relação com álcool e drogas. Hayden contou que seus problemas começaram ainda muito jovem e se intensificaram ao longo dos anos. Ela descreveu períodos de dependência de álcool e opioides, tratamentos e recaídas. O problema não existia isoladamente. Dor física, pressão profissional, relacionamentos e problemas emocionais apareceram repetidamente associados aos períodos mais difíceis de sua vida. Depois do nascimento de sua filha Kaya, em 2014, Hayden enfrentou uma grave depressão pós-parto. A situação deteriorou sua saúde e afetou profundamente sua capacidade de cuidar da própria vida. Hayden procurou tratamento. Mas sua relação com a maternidade também mudaria.
A decisão sobre Kaya
Kaya nasceu do relacionamento de Hayden com o ex-boxeador ucraniano Wladimir Klitschko. Quando os problemas pessoais de Hayden se agravaram, a menina passou a viver com o pai. Em suas memórias, Hayden descreveu a perda da convivência diária com a filha como uma das experiências mais dolorosas de sua vida. Ao mesmo tempo, reconheceu que naquele período não estava em condições de oferecer a estabilidade de que Kaya precisava. Klitschko tornou-se o principal responsável pela criação da menina. Hayden continuou fazendo parte de sua vida, embora à distância e de maneira muito diferente da maternidade que havia imaginado. Depois da morte da atriz, Klitschko afirmou publicamente que preservaria para Kaya a memória da mãe e pediu respeito à privacidade da família.
O relacionamento que terminou em violência
Em 2018, Hayden iniciou um relacionamento com Brian Hickerson. O que aconteceu entre os dois acabaria ultrapassando a esfera privada e chegando à polícia e aos tribunais. Hickerson foi preso mais de uma vez em episódios envolvendo acusações de violência contra Hayden. Em 2021, ele não contestou duas acusações criminais relacionadas a violência doméstica e recebeu uma sentença que incluía 45 dias de prisão, liberdade condicional, aulas sobre violência doméstica e uma ordem de restrição de cinco anos. Hayden descreveu no livro agressões ainda mais detalhadamente. Segundo seu relato, episódios que começaram com tapas evoluíram para socos. Em determinada ocasião, afirmou ter sofrido ferimentos no rosto tão graves que permaneceu semanas sem sair de casa. Documentos judiciais que voltaram à imprensa depois de sua morte também revelaram mensagens atribuídas a Hickerson após uma prisão em 2020. Segundo esses registros, ele teria tentado pressioná-la enquanto estava sujeito a uma ordem que restringia contato. Hickerson não desapareceu definitivamente da vida de Hayden depois do processo. Os dois voltaram a manter contato. E esse detalhe se tornaria particularmente relevante em agosto de 2026.
“Nashville” começou a imitar sua própria vida
Existe outro aspecto perturbador na trajetória de Hayden. Enquanto sua vida pessoal se deteriorava, ela interpretava Juliette Barnes em Nashville. A personagem também enfrentava fama, problemas emocionais, maternidade e depressão pós-parto. Para o público, era ficção. Para Hayden, começou a parecer outra coisa. Em suas memórias, ela descreveu o trabalho na série como uma experiência em que os roteiros começaram a refletir elementos dolorosamente próximos de sua própria vida. Durante uma das fases mais difíceis, interpretar Juliette significava entrar no set e dramatizar problemas semelhantes àqueles dos quais tentava escapar fora dele. Quando Nashville terminou em 2018, Hayden nem sequer participou da festa de encerramento. A série que lhe rendeu duas indicações ao Globo de Ouro também havia se tornado inseparável de um dos períodos mais difíceis de sua vida.
Três meses antes de morrer
Em 19 de maio de 2026, This Is Me: A Reckoning chegou às livrarias. Hayden parecia estar tentando reorganizar sua própria história. Ela não escreveu apenas sobre Hollywood. Falou sobre sua família, dependência, maternidade, relacionamentos e escolhas das quais se arrependia. Também decidiu não apresentar a si mesma simplesmente como vítima de tudo o que havia acontecido. Nas entrevistas de divulgação, falava sobre responsabilidade pessoal e sobre aprender a confiar novamente em seus próprios julgamentos depois de passar grande parte da vida sendo direcionada por outras pessoas. O livro se tornou best-seller. Três meses depois, Hayden estava morta.
O homem condenado por agredi-la estava lá
A morte de Hayden ganhou uma nova camada quando o relatório policial começou a revelar quem estava no local naquele domingo. Brian Hickerson estava no condomínio. Seu irmão, Zach Hickerson, também estava presente. Segundo o relatório policial divulgado após a morte, agentes encontraram Brian e Zach enquanto paramédicos tentavam reanimar Hayden. Brian entregou aos policiais uma sacola contendo medicamentos que, segundo ele, pertenciam à atriz. Os socorristas realizaram manobras de ressuscitação. Às 14h31, Hayden foi declarada morta. A presença de Hickerson imediatamente chamou atenção por causa do histórico de violência entre os dois. Poucos dias antes da morte de Hayden, um pedido dele para reduzir antigas condenações criminais relacionadas ao caso havia sido rejeitado. Isso não significa que Brian Hickerson tenha provocado a morte da atriz. Até o momento, a polícia informou que não existem sinais de crime. A autópsia preliminar também não encontrou sinais de trauma. Portanto, não há evidência pública que permita relacioná-lo criminalmente à morte de Hayden.
O que aconteceu naquela tarde?
Uma chamada para o serviço de emergência mencionou uma possível overdose e parada cardíaca. Essa informação levou alguns veículos e inúmeras publicações nas redes sociais a tratarem overdose como causa da morte. Ainda não é possível fazer essa afirmação. A autópsia inicial não determinou uma causa. Exames toxicológicos e outras análises permanecem pendentes. O fato de Hayden ter falado publicamente sobre dependência química também não permite concluir que sua morte tenha sido provocada por drogas. Até que o legista conclua a investigação, a causa e a maneira da morte permanecem oficialmente indeterminadas.
Uma última revelação depois da morte
Nos dias seguintes, pessoas que haviam trabalhado recentemente com Hayden começaram a falar. Griff Furst, diretor de A Breed Apart, lançado em 2025, contou que percebeu algo diferente quando Hayden apareceu para trabalhar acompanhada por Brian Hickerson. Segundo Furst, havia uma energia que ele descreveu como sombria ao redor daquela situação. Ele afirmou ter percebido que Hayden não parecia bem, embora continuasse profissional e demonstrasse entusiasmo pelo trabalho. É uma percepção pessoal feita retrospectivamente por alguém que trabalhou com ela, não uma conclusão sobre o que estava acontecendo na vida privada da atriz. Mas a declaração ganhou repercussão porque surgiu justamente depois de Hayden ter passado seus últimos meses falando publicamente sobre aquilo que havia vivido longe das câmeras.
A história que Hayden decidiu contar
Durante décadas, milhões de pessoas conheceram Hayden Panettiere como a garota praticamente indestrutível de Heroes. A realidade foi muito diferente. Ela cresceu trabalhando entre adultos, relatou situações de exploração e comportamento sexual inadequado envolvendo homens poderosos, enfrentou dependência química, depressão pós-parto, perdeu a convivência diária com a filha e viveu um relacionamento marcado por violência doméstica. Em maio de 2026, decidiu colocar grande parte dessa história no papel. Não revelou todos os nomes. Não explicou tudo. Mas deixou registrado o que dizia ter acontecido. Em 16 de agosto, menos de três meses depois do lançamento de suas memórias, Hayden morreu aos 36 anos. Agora, enquanto o legista ainda tenta estabelecer exatamente o que aconteceu em suas últimas horas, o livro que deveria marcar uma nova etapa de sua vida acabou se transformando em seu último grande relato sobre ela mesma.
Fontes: Associated Press, Reuters, People, Grand Central Publishing e On Purpose with Jay Shetty.