Antes de Kimberly Drummond
Dana Michelle Plato nasceu em 7 de novembro de 1964, na Califórnia. Foi adotada ainda bebê por Dean e Florine "Kay" Plato e cresceu no Vale de San Fernando. Sua relação com o entretenimento começou muito cedo. Ainda criança, Dana trabalhou em dezenas de comerciais e começou a aparecer em produções para televisão e cinema. Antes de completar 14 anos, já acumulava experiências diante das câmeras, incluindo participações em "Beyond the Bermuda Triangle", "Return to Boggy Creek", "The Six Million Dollar Man", "Family" e no filme "California Suite".
Décadas depois, algumas dessas aparições infantis seriam revisitadas sob um olhar muito diferente daquele existente na televisão dos anos 1970. Uma participação de Dana em "Family", ainda criança, passou a ser lembrada principalmente por uma sequência em que aparece usando biquíni. Isoladamente, a cena poderia ser interpretada simplesmente como parte de uma produção de sua época. Quando colocada ao lado de outros momentos de sua carreira, porém, ela passou a fazer parte de uma discussão maior sobre como meninas que trabalhavam em Hollywood eram apresentadas diante de audiências adultas. Dana ainda nem havia alcançado o papel que a tornaria famosa.
A chegada a "Arnold"
Em 1978, Dana conseguiu o papel de Kimberly Drummond em "Diff'rent Strokes", série exibida no Brasil com o título "Arnold". A história acompanhava Phillip Drummond, interpretado por Conrad Bain, um empresário milionário de Manhattan que vivia com a filha Kimberly. Depois da morte de sua antiga governanta, Drummond acolhe os filhos dela, Willis e Arnold Jackson, dois garotos negros do Harlem interpretados por Todd Bridges e Gary Coleman.
A família se tornou um fenômeno da televisão americana. Gary Coleman rapidamente se transformou na principal estrela infantil do programa, enquanto Dana representava a filha adolescente de Drummond. Ela tinha apenas 14 anos quando a série estreou. O programa abordava assuntos surpreendentemente pesados para uma sitcom familiar, incluindo racismo, drogas, transtornos alimentares e abuso infantil. Ao mesmo tempo, alguns momentos envolvendo a própria Dana passaram a provocar desconforto quando vistos décadas depois.
O que hoje parece muito diferente
Dana cresceu diante das câmeras de "Arnold". Isso significava que milhões de espectadores acompanharam sua passagem da infância para a adolescência. Em determinadas sequências, Kimberly aparecia usando roupas de banho e sua aparência física se tornava parte das piadas ou dos comentários dos personagens. Há cenas que, observadas pelos padrões atuais, despertam questionamentos sobre os limites impostos a uma atriz adolescente.
Esse ponto precisa ser analisado dentro de seu período histórico. Situações envolvendo adolescentes eram retratadas de maneira diferente na televisão das décadas de 1970 e 1980. Isso não significa, porém, que a discussão contemporânea sobre aquelas escolhas seja irrelevante. Pelo contrário. Produções posteriores sobre "Arnold" passaram a discutir justamente o contraste entre a imagem familiar exibida pela série e as dificuldades enfrentadas pelos três jovens atores fora das câmeras. Dana estava se tornando uma jovem mulher dentro de uma indústria que acompanhava e comercializava sua aparência desde a infância.
As revelações de Todd Bridges
Décadas depois, Todd Bridges falou publicamente sobre sua relação com Dana. O ator afirmou que os dois tiveram experiências de natureza sexual quando ainda eram muito jovens. Ao revisitar aquele período como adulto, Bridges também levantou dúvidas sobre comportamentos de Dana e chegou a questionar se ela poderia ter sido exposta anteriormente a alguma forma de abuso. Esse ponto exige cautela. Não existe comprovação pública de que Dana Plato tenha sofrido o abuso específico imaginado por Bridges. Não há uma conclusão policial ou judicial estabelecendo isso como fato.
Portanto, a afirmação deve permanecer exatamente no campo em que surgiu: uma suspeita retrospectiva de alguém que conviveu intimamente com ela. O que pode ser documentado é que Dana cresceu profissionalmente em uma indústria na qual sua imagem era explorada comercialmente desde criança e que, ainda muito jovem, começou a enfrentar problemas pessoais que acompanhariam o restante de sua vida.
Gravidez e saída da série
Em 1983, a vida de Dana mudou novamente. Ela engravidou do músico Lanny Lambert. A gravidez criou dificuldades para os roteiristas de "Arnold", já que Kimberly não estava sendo preparada para uma história envolvendo maternidade. A presença de Dana na série foi reduzida e ela deixou de integrar regularmente o elenco. Dana e Lanny se casaram em 1984. Em 2 de julho daquele ano nasceu Tyler Edward Lambert, único filho da atriz. Dana tinha 19 anos. Ela ainda faria participações posteriores em "Arnold", mas sua fase como integrante regular da família Drummond havia terminado. E a carreira que parecia praticamente garantida durante sua adolescência começou a desaparecer.
O fim do casamento e a perda da estabilidade
O casamento com Lanny Lambert não durou. Os dois se separaram e posteriormente se divorciaram. A disputa pela guarda de Tyler terminou com Lanny assumindo a custódia do menino. Paralelamente, Dana enfrentava dificuldades para conseguir trabalhos relevantes. Esse foi um problema comum entre antigos atores infantis. O público continuava associando seu rosto à adolescente Kimberly, enquanto a indústria já procurava novas estrelas.
Dana passou a trabalhar em produções menores e enfrentou problemas financeiros cada vez mais graves. Ela também reconheceu posteriormente que havia desenvolvido uma relação destrutiva com o álcool. Em uma entrevista de 1992, afirmou ter passado aproximadamente três anos bebendo continuamente. A antiga estrela de uma das sitcoms mais populares dos Estados Unidos estava entrando em uma fase completamente diferente de sua vida.
O assalto que terminou em prisão
Em 1991, Dana Plato estava morando em Las Vegas. Sua situação financeira havia deteriorado drasticamente. Em 28 de fevereiro daquele ano, ela entrou em uma locadora de vídeos e apresentou uma arma ao atendente. Dana levou aproximadamente US$ 160. O funcionário reconheceu imediatamente quem havia cometido o crime. A mulher que acabara de assaltar o estabelecimento era Kimberly Drummond. A polícia recebeu a identificação e Dana foi presa pouco depois. O episódio ganhou repercussão nacional justamente pelo contraste entre a imagem que o público guardava dela e a realidade de sua vida naquele momento. O cantor Wayne Newton pagou sua fiança. Dana posteriormente declarou-se culpada e recebeu liberdade condicional. Mas os problemas com a Justiça não haviam terminado.
Uma nova prisão
No ano seguinte, Dana voltou a enfrentar acusações. Desta vez, o caso envolvia uma receita falsificada de Valium. Ela novamente declarou-se culpada. A Justiça determinou liberdade condicional e tratamento relacionado ao uso de substâncias. A sequência de episódios transformou sua imagem pública. A adolescente rica e aparentemente protegida de "Arnold" agora aparecia nos jornais associada a dependência química, dificuldades financeiras e processos criminais. Dana tentou reconstruir a carreira. Participou de produções de baixo orçamento, trabalhos no teatro e filmes lançados diretamente em vídeo. Em 1989, também havia posado para a revista Playboy numa tentativa de romper definitivamente com a imagem infantil de Kimberly. Nenhum desses trabalhos conseguiu reproduzir o sucesso de "Arnold".
Uma última tentativa de explicar sua vida
Em 7 de maio de 1999, Dana participou do programa de rádio de Howard Stern. A entrevista se tornaria especialmente conhecida porque aconteceu apenas um dia antes de sua morte. Dana falou sobre sua vida, os problemas financeiros, o uso de drogas e as dificuldades enfrentadas depois da fama. Durante o programa, alguns ouvintes telefonaram e fizeram comentários extremamente agressivos sobre sua aparência, sua carreira e sua dependência química. Dana insistiu que estava sóbria. Naquele momento, estava noiva de Robert Menchaca. Depois da entrevista, os dois viajaram para Oklahoma, onde visitariam a família dele. Seria a última viagem da atriz.
A morte aos 34 anos
Em 8 de maio de 1999, Dana estava na cidade de Moore, Oklahoma. Segundo as informações divulgadas inicialmente, ela tomou o analgésico Lortab e Valium. Depois, foi descansar. Não acordou. Dana Plato morreu aos 34 anos. Nas primeiras horas, a possibilidade divulgada pelas autoridades era de uma overdose acidental. A conclusão oficial mudaria posteriormente. O escritório do médico legista de Oklahoma determinou que Dana morreu em consequência de uma overdose de medicamentos e classificou a morte como suicídio. A atriz que havia passado praticamente toda a vida diante das câmeras morreu menos de 24 horas depois de uma de suas últimas grandes aparições públicas.
A tragédia atingiria novamente a família
Dana deixou seu único filho, Tyler Lambert, que tinha 14 anos quando a mãe morreu. A história familiar teria posteriormente outro desfecho devastador. Em 6 de maio de 2010, poucos dias antes do 11º aniversário da morte de Dana, Tyler morreu aos 25 anos. Sua morte também foi considerada suicídio. A tragédia fez com que a trajetória de Dana voltasse aos noticiários mais de uma década depois de sua morte.
A chamada "maldição de Arnold"
Com o passar dos anos, a imprensa começou a utilizar uma expressão controversa para descrever os problemas enfrentados pelos jovens protagonistas de "Diff'rent Strokes": a "maldição de Arnold". Gary Coleman enfrentou problemas de saúde durante praticamente toda a vida, disputas financeiras e dificuldades profissionais. Morreu em 2010, aos 42 anos.
Todd Bridges enfrentou dependência química e diversos problemas com a Justiça antes de conseguir reconstruir sua vida e carreira. Dana morreu aos 34. Transformar essas histórias em uma suposta "maldição", porém, pode esconder uma questão muito mais concreta. Todos eram crianças trabalhando dentro de uma das indústrias mais competitivas do mundo. Ficaram famosos antes de compreender completamente o que significava ser famoso. Suas vidas pessoais se transformaram em entretenimento e, quando deixaram de ser crianças, descobriram que a mesma indústria que os havia transformado em estrelas poderia simplesmente seguir em frente.
O outro lado da história de Dana Plato
É fácil contar a trajetória de Dana começando pelo assalto e terminando na overdose. Mas isso elimina uma parte essencial da história. Antes da prisão havia uma menina trabalhando diante das câmeras. Antes da dependência havia uma adolescente cuja aparência era observada e comentada diante de milhões de espectadores. Antes das dificuldades financeiras havia uma jovem que, durante anos, viveu uma realidade completamente diferente daquela enfrentada pela maioria das pessoas de sua idade.
Nada disso prova que Hollywood tenha sido responsável pelas escolhas posteriores de Dana. Também seria incorreto transformar as suspeitas de abuso levantadas décadas depois em fatos comprovados. Mas sua história permite fazer outra pergunta. Quais estruturas existiam para proteger uma criança quando aquilo que tornava essa criança valiosa para a indústria era justamente sua imagem?
Fontes: Los Angeles Times, Associated Press, People, arquivos da NBC sobre "Diff'rent Strokes" e entrevistas e registros públicos de Dana Plato e Todd Bridges.