Uma ligação para o 911
Na tarde de 27 de abril de 2024, uma mulher ligou para o serviço de emergência do condado de Robeson, na Carolina do Norte. Era Mica Miller, de 30 anos. Ela estava no Lumber River State Park e queria saber se as autoridades conseguiriam localizar seu telefone. Mica disse à atendente que pretendia tirar a própria vida e queria que sua família soubesse onde encontrá-la. A ligação terminou, e as autoridades começaram imediatamente a tentar localizá-la. Pouco depois, seu corpo foi encontrado na água. Mica havia morrido com um ferimento de arma de fogo. O médico legista e o Gabinete do Xerife do Condado de Robeson concluíram que o disparo havia sido autoinfligido e classificaram a morte como suicídio. Mas havia um detalhe que faria aquela história ganhar repercussão nacional: Mica era esposa de John-Paul Miller, pastor de uma igreja na Carolina do Sul, e estava tentando terminar o casamento.
Dois dias antes
Mica e John-Paul estavam separados quando ela morreu. O relacionamento havia entrado em uma disputa judicial e, em abril de 2024, Mica apresentou uma nova ação de separação. John-Paul foi formalmente notificado do processo em 25 de abril. Dois dias depois, Mica estava morta. A proximidade entre os acontecimentos provocou suspeitas entre familiares e pessoas próximas, especialmente porque Mica havia feito acusações graves contra o marido nos meses anteriores. A morte, entretanto, foi investigada separadamente pelas autoridades da Carolina do Norte, e os investigadores reconstruíram detalhadamente as últimas horas de Mica. Câmeras registraram Mica saindo de casa, comprando uma arma e munição em uma loja de Myrtle Beach e dirigindo sozinha até a região do parque. Seu veículo também foi registrado durante o trajeto. John-Paul, por sua vez, estava em Charleston quando Mica morreu, algo que as autoridades afirmaram ter confirmado através de testemunhas e leitores automáticos de placas. Nenhuma evidência pública estabeleceu que ele estivesse no parque ou tivesse provocado diretamente a morte da esposa.
A história começou muito antes da morte
Mica estava profundamente envolvida com a igreja de John-Paul. Ela trabalhou em diferentes funções ligadas à Solid Rock Church, em Myrtle Beach, incluindo atividades de música e ministério. O relacionamento amoroso entre os dois começou anos antes do casamento, e eles se casaram em 2017. Com o passar do tempo, porém, a relação começou a se deteriorar. Em outubro de 2023, Mica chegou a pedir o divórcio, mas o processo posteriormente foi encerrado. John-Paul apresentou uma ação de separação em fevereiro de 2024, que também acabou retirada. Em abril, foi Mica quem voltou à Justiça buscando a separação. Documentos policiais mostram que, paralelamente à batalha matrimonial, ela procurava autoridades para registrar aquilo que dizia estar acontecendo em sua vida privada.
"Tenho medo pela minha vida"
Nos meses anteriores à morte, Mica registrou diferentes ocorrências envolvendo John-Paul. Em uma delas, relatou à polícia que havia encontrado um dispositivo de rastreamento em seu veículo. Também alegou que estava sendo seguida e assediada. Em outro episódio, afirmou que uma fotografia íntima sua havia sido publicada online sem consentimento. Documentos apresentados posteriormente pela família também registraram que Mica dizia sentir medo do marido. John-Paul negou publicamente as acusações de abuso e apresentou uma versão diferente sobre o casamento, atribuindo parte dos conflitos aos problemas de saúde mental que, segundo ele, Mica enfrentava. Naquele momento, portanto, existiam acusações de Mica e de familiares que ainda não haviam sido transformadas em condenações criminais. Isso mudaria mais de um ano depois.
O que aconteceu no último dia
A investigação reconstruiu praticamente hora por hora os movimentos de Mica em 27 de abril. Às 11h38, uma câmera residencial registrou sua saída. Pouco depois do meio-dia, ela entrou em uma loja de armas em Myrtle Beach. Imagens de segurança mostraram Mica iniciando a compra de uma arma e deixando o estabelecimento com a arma e munição. Ela seguiu viagem, foi registrada por câmeras durante o percurso e parou em um estabelecimento em Mullins. Depois dirigiu até o Lumber River State Park. Às 14h54, fez a ligação para o 911. Quando policiais localizaram seu Honda, encontraram no interior do veículo a embalagem da arma, munição e recibos das compras daquele dia. O conjunto de imagens, registros telefônicos, testemunhos, evidências físicas e a análise do médico legista levou as autoridades a concluir que Mica havia tirado a própria vida.
O anúncio dentro da igreja
Na manhã seguinte, John-Paul Miller subiu ao púlpito da Solid Rock Church para realizar o culto de domingo. Próximo ao final da cerimônia, comunicou aos fiéis que Mica havia morrido. Ele afirmou que a morte havia sido autoinfligida e pediu que as pessoas não discutissem o assunto dentro da igreja. O anúncio rapidamente começou a circular nas redes sociais. Ao mesmo tempo, familiares de Mica passaram a tornar públicas as acusações que ela havia feito antes de morrer. A combinação entre a tentativa de separação, os relatos de perseguição e a maneira como a morte foi anunciada provocou uma onda de suspeitas na internet. Algumas teorias chegaram a sugerir que Mica havia sido assassinada. As evidências oficiais, porém, não sustentaram essa conclusão. A morte continuou classificada como suicídio.
A investigação não terminou ali
O fato de John-Paul não ter sido responsabilizado pela morte não significava que todas as acusações feitas por Mica haviam sido encerradas. O FBI começou a investigar informações relacionadas ao relacionamento do casal. Em novembro de 2024, agentes federais realizaram buscas na residência de John-Paul. A investigação avançou silenciosamente durante 2025. Então, em 18 de dezembro daquele ano, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou uma decisão que mudaria novamente a história: um grande júri federal havia indiciado John-Paul Miller.
As acusações federais
John-Paul foi acusado de cyberstalking e de fazer declarações falsas a investigadores federais. Segundo a acusação, entre novembro de 2022 e a morte de Mica em abril de 2024, ele teria realizado uma campanha persistente de contatos indesejados e comportamentos de assédio contra a esposa. Os promotores alegam que John-Paul publicou online uma fotografia íntima de Mica sem seu consentimento, fez com que dispositivos de rastreamento fossem colocados no veículo dela, interferiu em suas finanças e atividades diárias e chegou a entrar em contato com ela mais de 50 vezes em um único dia. A acusação também afirma que ele danificou os pneus do veículo de Mica.
A compra que chamou atenção dos investigadores
Uma das acusações federais envolve justamente os pneus do carro. Segundo o Departamento de Justiça, quando questionado pelos investigadores, John-Paul teria negado ser responsável pelos danos. A acusação afirma, porém, que ele havia comprado pela internet um dispositivo utilizado para esvaziar pneus e enviado mensagens a outras pessoas relacionadas ao veículo de Mica. Os promotores também alegam que John-Paul apresentou aos investigadores uma explicação falsa sobre a contratação de um investigador particular. Ele teria afirmado que a intenção era impedir Mica de comprar armas, enquanto o governo sustenta que o verdadeiro objetivo era monitorá-la. Essas afirmações fazem parte da acusação federal e ainda precisam ser provadas no julgamento.
Ele se declara inocente
Em janeiro de 2026, John-Paul compareceu ao tribunal federal em Florence, Carolina do Sul, e se declarou inocente das duas acusações. O juiz estabeleceu fiança de US$ 100 mil e determinou monitoramento eletrônico. John-Paul também ficou sujeito a restrições de deslocamento e contato com possíveis testemunhas. Durante a audiência, promotores afirmaram que agentes haviam encontrado grandes quantidades de dinheiro e barras e moedas de prata em um cofre na residência dele, algo que utilizaram para argumentar sobre possível risco de fuga. John-Paul permanece presumidamente inocente das acusações federais enquanto o processo não for concluído. Ele pode receber até cinco anos de prisão pela acusação de cyberstalking e até dois anos por declarações falsas, caso seja condenado.
O que John-Paul não está sendo acusado de fazer
Essa distinção é fundamental para compreender o caso. John-Paul Miller não foi acusado de assassinar Mica. O processo federal também não altera a conclusão oficial sobre a causa da morte dela. As autoridades da Carolina do Norte continuam classificando a morte como suicídio. O que o governo federal pretende provar é que, antes da morte, John-Paul submeteu Mica a uma campanha de cyberstalking e depois mentiu aos investigadores sobre determinadas ações. Portanto, dizer que "o pastor matou a esposa" ou que ele foi "indiciado pela morte de Mica" seria incorreto. O caso criminal atual envolve a maneira como ele supostamente a perseguiu antes de sua morte.
O caso volta aos holofotes
Agora, em agosto de 2026, a história está prestes a receber uma nova onda de atenção. A Netflix anunciou a série documental de três episódios *Death of the Pastor's Wife*, com estreia marcada para 26 de agosto. A produção reúne familiares e amigos de Mica, além de imagens nunca divulgadas anteriormente, para reconstruir sua vida, seu casamento e os acontecimentos anteriores à morte. A estreia acontece em um momento particularmente importante. John-Paul continua enfrentando o processo federal e tem uma audiência pré-julgamento marcada para 25 de agosto, um dia antes da chegada do documentário.
O que aconteceu com Mica e o que ainda será julgado
Mais de dois anos depois, duas histórias diferentes continuam frequentemente misturadas. A primeira é a morte de Mica Miller. Sobre ela, a conclusão oficial permanece clara: depois de comprar uma arma, dirigir até o Lumber River State Park e ligar para o 911 anunciando sua intenção, Mica morreu por um disparo autoinfligido. A segunda história envolve aquilo que ela dizia estar enfrentando antes daquele dia. Sobre isso, agora existe um processo federal. O homem que Mica acusava de persegui-la não está sendo julgado por sua morte. John-Paul Miller está sendo acusado justamente de comportamentos que ela denunciava enquanto ainda estava viva. Ele nega as acusações e se declarou inocente. Caberá agora a um tribunal federal decidir se os promotores conseguem provar que, durante os últimos meses da vida de Mica, os pedidos de ajuda que ela fazia descreviam também crimes cometidos pelo próprio marido.
Fontes: Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Gabinete do Xerife do Condado de Robeson, documentos da Justiça da Carolina do Sul, *The Sun News* e WMBF News.