ELA ATRAVESSOU O MUNDO PARA ENCONTRAR A AMIGA DESAPARECIDA
Céline Cremer desapareceu durante uma caminhada em uma floresta da Tasmânia. Depois que as buscas oficiais não conseguiram encontrá-la,...
Em 17 de junho de 2023, Céline Cremer estacionou seu Honda CR-V branco no início de uma trilha próxima à pequena cidade de Waratah, no noroeste da Tasmânia, Austrália. A mochileira belga de 31 anos pretendia conhecer Philosopher Falls, uma sequência de cachoeiras cercada por uma das regiões de floresta temperada mais densas da ilha. Tudo indicava que seria uma caminhada relativamente curta. Céline deixou equipamentos de camping e outros objetos dentro do carro. Não parecia preparada para passar a noite na floresta. Depois de iniciar a trilha, porém, ela nunca mais foi vista com vida. Nove dias depois, em 26 de junho, amigos comunicaram seu desaparecimento à polícia. No dia seguinte, o veículo foi encontrado no estacionamento de Philosopher Falls. Começava uma busca que atravessaria quase três anos e envolveria policiais, equipes de resgate, investigadores particulares e dezenas de voluntários. Entre essas pessoas estava Justine Ropet, melhor amiga de Céline desde a infância. Quando as buscas oficiais começaram a perder força, Justine tomou uma decisão radical: deixou a Bélgica e foi para o outro lado do planeta procurar pessoalmente pela amiga.
As últimas mensagens
A mochileira belga Céline Cremer (esq.) foi vista com vida pela última vez em Waratah, cidade no noroeste da ilha australiana da Tasmânia, em 17 de junho de 2023
Céline havia chegado à Austrália em junho de 2022 para trabalhar e viajar pelo país. Justine planejava surpreendê-la meses depois. As duas se conheciam desde a pré-escola em Trasenster, pequeno vilarejo no leste da Bélgica, e haviam passado praticamente toda a vida juntas. Em 13 de junho de 2023, aniversário de Céline, trocaram aquelas que seriam suas últimas mensagens. Justine desejou feliz aniversário. Céline respondeu dizendo que estava aproveitando a viagem e que contaria tudo posteriormente. Precisava voltar à estrada antes de escurecer. Poucos dias depois, Justine comprou passagens para encontrá-la na Austrália. Céline nunca soube da surpresa. Quando deixou de responder às mensagens, amigos inicialmente tentaram tranquilizar Justine. A Tasmânia possui extensas regiões sem cobertura de telefonia celular, portanto permanecer alguns dias incomunicável durante uma viagem não parecia necessariamente alarmante. Duas semanas de silêncio mudaram completamente essa percepção.
O último registro
As autoridades reconstruíram os últimos movimentos conhecidos de Céline. Ela esteve em Waratah e passou por um estabelecimento local antes de seguir para Philosopher Falls. Imagens de câmeras de segurança registraram Céline comprando combustível, um café com leite e um pedaço de bolo de cenoura. Pessoas que tiveram contato com ela naquele momento não perceberam qualquer comportamento incomum. Depois disso, ela dirigiu até o estacionamento da trilha. O carro seria encontrado em 27 de junho. Dentro dele havia equipamentos que indicavam que Céline provavelmente pretendia realizar apenas uma caminhada durante o dia. A descoberta reforçou imediatamente a preocupação das equipes de resgate.
Uma floresta extremamente difícil
Philosopher Falls não é uma paisagem aberta. A região é coberta por vegetação densa, árvores, samambaias, rios e terrenos irregulares. Fora das trilhas demarcadas, poucos metros podem ser suficientes para perder completamente a orientação. Quando Céline desapareceu, a Tasmânia atravessava o inverno. Nos dias seguintes foram registradas temperaturas abaixo de zero, chuva e neve. Especialistas médicos consultados pela polícia concluíram que uma pessoa exposta àquelas condições durante tanto tempo provavelmente não sobreviveria. Equipes utilizaram helicópteros, drones e grupos terrestres. Policiais chegaram a descer de rapel nas proximidades da cachoeira. Nenhum vestígio foi encontrado. Em 10 de julho de 2023, as buscas principais foram suspensas. Novas operações ocorreriam posteriormente, inclusive com cães especializados em localização de restos mortais, mas novamente sem resultado. Para Justine, porém, aceitar que Céline provavelmente estava morta era diferente de aceitar que jamais seria encontrada.
A amiga que se recusou a desistir
'Ela é, literalmente, minha melhor amiga desde sempre', diz Justine
Em julho de 2023, Justine viajou para a Tasmânia e começou a participar dos esforços para localizar Céline. Ela tentou conhecer moradores, trilheiros e qualquer pessoa que pudesse ajudar a reconstruir os movimentos da amiga. Depois retornou à Bélgica. Mas a ausência de respostas continuava consumindo sua rotina. Em janeiro de 2024, Justine tomou uma decisão ainda mais extrema. Mudou-se temporariamente para a Tasmânia e passou aproximadamente seis meses procurando qualquer sinal de Céline. A busca começou a cobrar um preço psicológico. Justine relatou posteriormente que estava exausta e próxima de uma depressão. O amigo Gabriel Remy passou a assumir parte da organização e entrou em contato com pessoas que haviam participado das buscas anteriores. Antes de deixar novamente a Austrália, Justine procurou o investigador particular Ken Gamble. Ele decidiu trabalhar gratuitamente no caso. A partir daquele momento, começou a surgir uma equipe independente formada por pessoas com diferentes conhecimentos sobre investigação, sobrevivência e exploração de regiões remotas.
O telefone que estava na floresta desde 2023
Em dezembro de 2025, mais de dois anos depois do desaparecimento, a equipe privada retornou à região de Philosopher Falls. Em 13 de dezembro, aconteceu a descoberta que mudou completamente o caso. Os voluntários encontraram um telefone celular. A Polícia da Tasmânia confirmou no mesmo dia que o aparelho pertencia a Céline Cremer. O detalhe mais impressionante era o local. Aquela região já havia sido examinada anteriormente durante as buscas. A posição do aparelho, combinada com dados recuperados sobre seus movimentos, permitiu aos investigadores formular uma nova reconstrução para os últimos momentos da mochileira. Céline provavelmente havia decidido sair da trilha oficial.
O provável erro que decidiu seu destino
Segundo o inspetor Andrew Hanson, os dados disponíveis indicam que Céline pode ter utilizado um aplicativo de mapas para procurar uma rota aparentemente mais direta até seu carro quando a luz do dia começava a desaparecer. No mapa, a distância poderia parecer pequena. Na floresta real, a situação era completamente diferente. Ao abandonar a trilha, Céline entrou em uma região de vegetação extremamente densa e terreno difícil. A polícia acredita que, durante o deslocamento, ela deixou cair o telefone. Provavelmente continuou caminhando sem perceber imediatamente onde o aparelho havia ficado. Sem o celular e fora da trilha, Céline teria perdido a orientação. A descoberta também ajudou a explicar por que as buscas anteriores não haviam encontrado seu corpo. Ela aparentemente havia seguido para uma região diferente daquela considerada inicialmente mais provável pelos investigadores.
A descoberta no rio Arthur
O telefone reacendeu as buscas. Em 28 de janeiro de 2026, um voluntário que havia participado dos esforços para encontrar Céline localizou restos humanos próximos a Philosopher Falls. O homem comunicou imediatamente a polícia e forneceu as coordenadas do local. A região ficava próxima ao rio Arthur. Equipes especializadas foram enviadas ao local. Dois dias depois, novos ossos e peças de roupa foram encontrados ao longo do rio, aproximadamente 2,5 quilômetros de Philosopher Falls. Entre os objetos havia uma jaqueta de fleece que os investigadores acreditavam pertencer a Céline. As buscas continuaram. Em fevereiro, policiais examinaram detalhadamente cerca de 350 metros do leito do rio. Encontraram outros cinco ossos, dois dentes e uma chave de automóvel Honda. A chave foi oficialmente confirmada como pertencente ao veículo de Céline. Alguns dos vestígios estavam presos sob detritos ou incorporados ao próprio leito do rio. Depois de quase três anos, o desaparecimento começava finalmente a ser explicado.
A identificação
Em 27 de fevereiro de 2026, a Polícia da Tasmânia anunciou que exames especializados haviam produzido evidências consideradas convincentes de que os restos mortais pertenciam a Céline Cremer. Testes de DNA e análises odontológicas apresentaram correspondência. A identificação foi inicialmente classificada oficialmente como provisória porque caberia ao legista responsável emitir a determinação formal no processo. Com os resultados, porém, a polícia encerrou as buscas planejadas no rio Arthur e preparou um relatório para o Coroner. Para a família, a confirmação encerrou quase três anos de espera. Amélie Cremer, irmã de Céline, afirmou publicamente que finalmente tinham respostas.
Houve algum crime?
Durante quase três anos sem corpo ou explicação, diferentes possibilidades naturalmente surgiram. Justine chegou a considerar que a amiga pudesse ter sido sequestrada. A investigação, entretanto, não encontrou evidências que sustentassem essa hipótese. A Polícia da Tasmânia considera que Céline chegou sozinha a Philosopher Falls, estacionou o veículo e iniciou uma caminhada. Os dados do celular, o local onde o aparelho foi encontrado e posteriormente a localização dos restos mortais sustentam a hipótese de um acidente durante uma tentativa de retornar ao estacionamento. Não existem, até o momento, indícios públicos de participação de terceiros. A explicação considerada mais provável é muito mais simples e, justamente por isso, assustadora. Céline se perdeu.
Como ninguém conseguiu encontrá-la antes?
Essa se tornou uma das perguntas centrais do caso. Equipes profissionais haviam procurado Céline durante dias. Helicópteros, drones, policiais, voluntários e até cães especializados passaram pela região ao longo dos anos. Ainda assim, seu telefone permaneceu na floresta até dezembro de 2025. Os restos mortais só apareceram semanas depois. O terreno ajuda a explicar parte desse mistério. A vegetação de Philosopher Falls é extremamente fechada e o rio Arthur atravessa regiões de difícil acesso. Chuva, correnteza, enchentes, queda de árvores e movimentação natural de detritos podem transportar ou ocultar objetos durante anos. Os próprios vestígios encontrados em 2026 estavam espalhados e alguns haviam ficado presos sob materiais acumulados no leito do rio. O caso também gerou uma discussão na Tasmânia sobre a participação de equipes voluntárias em desaparecimentos antigos. Meses depois, a polícia afirmou estar aberta a aprender com grupos independentes depois que voluntários envolvidos na busca por Céline também localizaram restos mortais durante outro caso de desaparecimento.
O alerta deixado pelo caso
Justine viveu por seis meses na Tasmânia para ajudar nas buscas conduzidas pela polícia
Depois de descobrir o que provavelmente aconteceu, Justine passou a carregar um equipamento que sequer conhecia antes do desaparecimento da amiga: um localizador pessoal de emergência, conhecido como PLB. Diferentemente de um telefone celular, o equipamento pode enviar um sinal de socorro por satélite mesmo em regiões sem cobertura convencional. A Polícia da Tasmânia também reforçou recomendações para caminhantes: permanecer nas trilhas demarcadas, informar outras pessoas sobre o trajeto planejado e carregar equipamentos adequados de comunicação e sobrevivência. O caso mostrou como um caminho que parece curto em um aplicativo pode representar uma realidade completamente diferente em uma floresta remota.
Fontes: BBC News Brasil, Tasmania Police, ABC News Australia, Australian Story (ABC) e registros públicos das operações de busca por Céline Cremer.